22 de novembro de 2016

Estudo do Livro de Gênesis

Gênesis é o primeiro livro da Torá. Faz parte do Pentateuco, que são os cinco primeiros livros da Bíblia. No hebraico, o nome do livro é Bereshith - “no princípio” -, no grego é Gênesis - “origem” -, nome que a Septuaginta deu ao primeiro livro do Antigo Testamento.

Gênesis é por excelência o livro da introdução maravilhosa a toda a Bíblia. Trata do começo de todas as coisas: dos céus e da terra, das plantas e dos animais e do gênero humano e de todas as instituições e relações humanas. É tipicamente a “sementeira” de toda a Bíblia, pois nele encontra-se o “embrião” de todas as doutrinas referentes a Deus, ao homem, ao pecado e à salvação.

Se quisermos entender verdadeiramente a revelação de Deus, temos de iniciar nosso estudo no primeiro livro da Bíblia. É essencial compreender o conteúdo e a mensagem deste livro para estudar o restante da Bíblia. Ele não é um livro de ciências, embora os cientistas estejam corretos em investigar suas afirmações. Não é uma obra de biografias, apesar de aprendermos muito com a vida dos homens e mulheres descritos em suas páginas. Não é um compêndio de história, embora siga o caminho da história. É um livro de teologia, apesar de não ser organizado sistematicamente.

O registro de Gênesis cobre pelo menos dois mil anos. Não é inteiramente história; é uma interpretação espiritual da História. Muitas origens são registradas nos 11 primeiros capítulos: o Universo natural, a vida humana, o pecado, a morte, a redenção, a civilização, as nações e as línguas. O restante do livro, a partir do capítulo 12, trata do começo da raça hebraica, primeiro sua formação por meio de Abraão, depois seu desenvolvimento subsequente e sua história mediante as figuras importantes de Isaque, Jacó e José.

As narrações refletem tradições muito antigas, ensinadas oralmente de geração em geração até serem escritas.

Se negarmos Gênesis, teremos de negar um Criador divino, uma criação divina, um Redentor divinamente prometido e uma Bíblia divinamente inspirada.

AUTOR DE GÊNESIS
O livro de Gênesis não identifica seu autor e, nenhum outro livro da Bíblia afirma explicitamente sua autoria. Tradicionalmente ele é atribuído a Moisés e, há bons motivos para isso.

Os outros livros da Torá vinculam Moisés à sua composição, e a maior parte da literatura bíblica analisa a Torá como uma unidade. Portanto, é completamente aceitável que Moisés se tenha tornado autor do conjunto.

Entretanto, ninguém pode afirmar com absoluta certeza que sabe quem escreveu o livro de Gênesis. Ainda que, ao longo dos séculos de história até os dias atuais, judeus e cristãos ortodoxos concordam que, Moisés foi o autor, narrador e compilador dos cinco primeiros livros da Bíblia, embora tenha contado com a ajuda de escribas e amanuenses, conforme a tradição.

A TEORIA DAS FONTES DOCUMENTÁRIAS
Por cerca de um século, os estudiosos adeptos da “hipótese documentária” tem declarado que Gênesis é uma composição de documentos conflitantes. Afirmam isso com base em grandes descobertas arqueológicas, tecnologias e melhores métodos de pesquisa e exegese. Os inúmeros exegetas se aproximam do Pentateuco como se fosse um documento histórico para reconstruir o passado. Este fato serviu para fundamentar a hipótese das fontes, também denominada teoria documentaria.

O alemão Julius Wellhausen deu expressão a esta teoria quando propôs que o Pentateuco foi uma compilação de quatro documentos escrito por autores diferentes e independentes durante um período de cerca de 400 anos, sendo finalmente redigido em sua forma básica por volta do quinto século a.C., ou seja, cerca de mil anos depois dos acontecimentos descritos. Wellhausen considerava as histórias bíblicas como tradições populares que funcionavam como um espelho para transmitir eventos históricos posteriores. Por exemplo, a luta entre Jacó e Esaú nada mais era do que um reflexo da inimizade entre as nações de Israel e Edom.

Partindo dos critérios usados na critica literária, os críticos liberais alegaram encontrar quatro documentos diferentes dentro do Pentateuco principalmente no livro do Gênesis. Concluíram que esses documentos poderiam ser divididos levando-se em conta as variações dentro do texto. Os vários estilos, nomes divinos diferentes e repetições de narrativas confirmariam tal hipótese.

Sendo assim eles classificaram como JEDS, sendo que:

1. Documento “J” – representaria o escritor que usou o nome Jeová (YHWH) em seus documentos.

2. Documento “E” – representaria o escritor que usou o nome Elohim em seus documentos.

3. Documento “D” – representaria o código deuteronômico que seria uma redação tardia encontrado em 621 a.C.

4. Documento “S” – representaria o ultimo escritor a trabalhar numa redação do Antigo Testamento. Ele pertencia à classe sacerdotal e viveu durante o exílio babilônico.

Dizem que o estilo da escrita de cada documento, assim como seu objetivo, difere entre si. Enquanto o documento “J” apresenta uma linguagem florida, o “S” possui a linguagem não de um historiador, mas de um jurista. Partindo deste pressuposto eles descartaram a autoria mosaica do Pentateuco.

Essa teoria, contudo, ainda não consegue apoiar-se em evidencias que possam ser dadas como irrefutáveis e livres de qualquer engano. Pesquisas recentes e ainda mais apuradas nos mais variados ramos da filologia, exegese, crítica textual, linguística, história, arqueologia, ciências das línguas originais e da literatura antiga, tendem a desfazer muitos dos interessantes e desafiadores argumentos usados constantemente para atacar as bases bíblicas mais tradicionais, em especial a autoria mosaica do Pentateuco.

DATA

Em 1 Reis 6.1, lemos que o Êxodo ocorreu 480 anos antes do início da construção do templo de Salomão, o que nos remete a aproximadamente 1446 a.C. O período de 40 anos de peregrinação de Israel pelo deserto, que durou de 1446 a.C., até 1406, provavelmente foi a ocasião em que Moisés escreveu (ou ditou) a maior parte do que chamamos de Torá ou Pentateuco.

Os leitores devem observar, porém, que embora ocasionalmente apareçam no texto palavras conhecidas somente a partir da metade do segundo milênio, a gramática do Pentateuco foi ocasionalmente atualizada, assim como alguns nomes de lugares. Também a lista de reis em 36.31-43 foi aparentemente acrescentada após a época de Saul.

O livro termina 300 anos antes do nascimento de Moisés. Então ele só poderia ter recebido as informações mediante revelação direta de Deus (Am 3.7) ou por meio de registros históricos a que teve acesso, transmitidos por seus antepassados.

Então, considerando as evidencias bíblicas e extrabíblicas que relacionam Gênesis e seu conteúdo com Moisés e a sua era, podemos concluir razoavelmente que o livro remonta ao século XV a.C.

O ATO DA CRIAÇÃO

A primeira frase dos manuscritos hebraicos das Sagradas Escrituras narra de maneira clara, assertiva e tranquila o momento da criação: Bereshit bará Elohim et Hashamaim vê et Haaretz (No princípio criou Deus os céus e a terra). Na simplicidade dessas palavras, temos a declaração da Bíblia quanto à origem deste Universo material. Deus fez todas as coisas surgirem pela palavra do seu poder. Ele falou, e os mundos foram formados (Hb 11.3).

No original hebraico que descreve a criação há duas palavras principais traduzidas como “criar”. A primeira é bará, que aparece na primeira frase do livro, e quer dizer, no modo em que o verbo aparece, “criar do nada”, sem uso de material preexistente.

A segunda palavra é jatsar, que significa “criar de material preexistente”, amoldar alguma coisa externamente assim como um escultor trabalha com a argila ou com a pedra. A primeira palavra, portanto, é usada quando Deus criou os céus e a terra do nada. A segunda palavra aparece em 2.7, quando Deus formou o homem do pó da terra (usando material preexistente, proveniente do material que havia criado do nada).

Embora, como já foi dito, o livro de Gênesis não seja um livro científico, ele apresenta informações sobre as origens e, portanto, atrai o interesse dos cientistas. Os que acreditam na Bíblia, muitas vezes se encontram na posição desconfortável de tentar conciliar suas declarações sobre as origens com as afirmações de teorias científicas. Contudo, é importante determinar exatamente o que as Escrituras dizem sobre o princípio.

Deus criou. Essa é a afirmação fundamental de Gênesis. Mesmo que esse livro não relate a criação de todas as coisas, não há espaço para qualquer outro criador. É possível, dependendo da tradução de Gênesis 1.1, que a matéria-prima já existisse quando a narrativa do livro começa. Mas não se pode deduzir com isso que Deus não tenha sido seu Criador.

Explicar como Deus criou tudo do nada é impossível. Mesmo assim, é lógico e racional crer que Deus criou todas as coisas com inteligência e diligencia, do que crer que tudo veio do acaso após uma grande explosão ou de um processo natural de evolução, como querem muitos ainda hoje.

Como Deus criou? O texto destaca que Deus criou com o poder de Sua Palavra, mas para os defensores da teoria da evolução, isso não elimina a possibilidade de Deus ter apenas impulsionado a sequência evolutiva. Os que rejeitam essa teoria argumentam que a função de Deus como criador evidencia seu controle soberano. Eles acreditam que a natureza arbitrária dos processos incluídos na teoria da evolução constituem uma ameaça contra o controle de Deus na criação. Pelo fato de a evolução ser definida em termos exclusivamente naturais, ela é inaceitável para a teologia de Gênesis, porque a criação, pela narração das Escrituras, é sobrenatural.

O relato da criação não tem a pretensão de apresentar uma explicação sobre a origem de todos os fenômenos naturais, e sim abordar os aspectos mais práticos da criação que cercam nossas experiências de vida e sobrevivência.

Ao longo do primeiro capítulo o autor narra como Deus instituiu períodos alternados de luz e trevas, que é a base do tempo. A narrativa menciona primeiramente a tarde, porque o primeiro período de luz está se findando. O autor não se aventura numa análise das propriedades físicas da luz, nem está preocupado com sua fonte ou energia geradora.

A IDADE DA TERRA

Deus criou o mundo em sete dias? A estrutura de sete dias de Gênesis 1 tem sido motivo de controvérsias até entre interpretes conservadores. Embora alguns a tenham usado como base para a defesa científica da terra como um planeta “jovem”, outros alegam que a estrutura de sete dias serve apenas de recurso literário, não de guia cronológico.

A dificuldade surge em parte, porque fazemos perguntas que as Escrituras nunca tiveram a intenção de responder. O objetivo do texto não é saciar nossa curiosidade sobre questões científicas, mas revelar-nos a natureza divina. A ciência tenta explicar as origens sem Deus; as Escrituras insistem que o aspecto mais importante das origens é a criação divina. Essas duas filosofias realmente não podem coexistir. Tentativas de conciliar a perspectiva bíblica com a científica são aceitáveis desde que não comprometam as afirmações da Bíblia.

Quantos anos tem a Terra? Os cientistas tem encontrado evidencias de que a terra é antiquíssima. Isso cria um conflito entre eles e certos cristãos que acreditam que a Bíblia diz claramente que faz pouco mais de seis mil anos que Deus criou o Universo.

O cristão deve reconhecer certos fatos ao interpretar a narrativa da criação. Em primeiro lugar, Gênesis não apresenta datas, e não se pode levar em consideração as genealogias para efetuar cálculos exatos, pois nelas há alguns vazios.

Mesmo considerando os grandes avanços científicos atuais e as melhores análises exegéticas e teológicas, não é possível precisar a idade do Universo nem quanto tempo levou o ato da criação. É provável que milhões de anos tenham passado entre os versículos 1 e 2 de Gênesis.

O certo é que Deus é o Senhor do tempo, espaço, matéria e de toda a energia, e não se deixa limitar por nenhuma dessas dimensões. A palavra “dia” para Deus pode significar o período de 24 horas como também toda uma era geológica de extensão indefinida.

A palavra hebraica usada em Gênesis 1 para dia (yôm) pode ser utilizada para designar tanto um período de 24 horas como uma representação simbólica. Existem várias passagens na Bíblia em que yôm é usada num contexto não-literal, como em “o dia do Senhor”, sem que isso signifique 24 horas.

Agostinho de Hipona em seus livros Comentário ao Gênesis; Confissões e a Cidade de Deus, repetidas vezes volta para questão do tempo em relação ao capítulo 1 de Gênesis, concluindo que Deus se encontra fora dele e não conectado a ele (2 Pedro 3.8 declara isso de modo explícito: “Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia”). Isso leva Agostinho a questionar a duração dos sete dias literais da criação.

Por fim, Agostinho escreve: “Que tipo de dias eram aqueles, para nós, é extremamente difícil ou talvez impossível, conceber”.

Diversas interpretações continuam a ser difundidas sobre o significado de Gênesis 1 e 2. Algumas em particular oriundas de cristãos sinceros, insistem em uma interpretação completamente literal, incluindo os dias de 24 horas. Com base em informações genealógicas do Antigo Testamento que vieram em seguida, chegam à conclusão que Deus criou os céus e a terra a menos de 10 mil anos. Cristãos igualmente sinceros não aceitam a condição de que os dias da criação tinham 24 horas, embora aceitem a narrativa como uma representação literal e sequencial dos atos criativos de Deus.

Apesar dos 25 séculos de debate entre ciência e religião, é justo dizer que nenhum ser humano sobe interpretar com precisão Gênesis 1 e 2.

A TEORIA DO CAOS

Devido às últimas descobertas arqueológicas e o crescente interesse pela ciência nas últimas décadas, vem ganhando força em nosso meio e nos círculos teológicos, a chamada Teoria da Lacuna, também conhecida como Teoria do Caos, Teoria do Intervalo ou Teoria da Ruína-Restauração, que representa uma aproximação entre criacionismo bíblico, darwinismo, cosmogonias (mitologia) e cosmologias modernas.

Essa teoria foi defendida em 1876 por C. H. Pember em sua obra As Idades Mais Remotas da Terra e a conexão delas com o Espiritualismo Moderno e a Teosofia. Outro defensor foi o Dr. Artur Custance, autor do livro Sem Forma e Vazia. Chambers a tornou popular utilizando-se das notas da Bíblia de Referência Scofield (1917). No Brasil, tornou-se conhecida através da obra de N. Lawrence Olson, O Plano Divino Através dos Séculos.

Não é por menos que a teoria em discussão seja contestada pelos teólogos cristãos, visto que está repleta de erros, bíblica e teologicamente falando. Os defensores da teoria do caos ensinam acerca de um pré-mundo habitado pelos anjos e por uma raça pré-adâmica. Esses habitantes teriam se rebelado juntamente com Satanás e por isso teriam recebido o juízo de Deus através de uma grande inundação, conhecida como “o dilúvio de lúcifer”, onde homens pré-históricos e dinossauros foram destruídos.

De acordo com os defensores dessa teoria, a terra teria sido criada perfeita para ser habitada, mas devido ao juízo de Deus sobre a civilização anterior a Adão, o mundo veio a se tornar caótico e desabitado. Então, dizem eles, isso explica o fato de haver desordem e caos em Gn. 1.2. Todavia, o texto de Gênesis está nos ensinando que Deus criou todas as coisas e que o escritor está fazendo alusão ao primeiro estado da matéria.

Se “bará” (verbo criar no hebraico) e “kitzo” (no grego) estão associados aos atos criativos de Deus ou ao que somente Deus pode fazer, visto que são ações impossíveis aos agentes humanos (Gn. 1.21, 27; 2.3,4; Dt. 4.32; Jó 38.7; Sl.51.10; Is. 40.26, 28; 42.5), temos por outro lado no latim a expressão creatio ex nihilo que, igualmente, nos conduz à noção do criado a partir do nada. Não é demais lembrarmos aqui as palavras do autor do livro aos Hebreus: “Pela fé entendemos que os mundos pela Palavra de Deus foram criados, de modo que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hb. 11.3). Portanto, o mundo foi criado pela Palavra a partir do nada e Deus não se valeu de matéria pré-existente ou modelos anteriores, nem mesmo no mundo espiritual como pretendem alguns, mas a Bíblia revela que a primeira matéria era informe e que o Espírito de Deus movia-se sobre a matéria recém-criada dando forma ao informe, enchimento ao vazio e ordenando o caótico.

Muitos cristãos, mesmo alguns fundamentalistas, se deixaram levar por essa associação equivocada entre criação e evolução para defenderem a proposta de que Deus apenas teria dado o toque inicial e daí em diante passou a ser um supervisor da ordem evolutiva – isso mais parece deísmo. Mas a Bíblia afirma em Gn. 1.1: “No Princípio Criou Deus os Céus e a Terra” e os versículos seguintes mostram Deus como o escultor em toda a obra criadora do universo

Os lacunistas dizem que a expressão de Gn. 1.2 contendo “waw”, que corresponde à nossa conjunção “e”, permite a mudança do verbo do perfeito para o imperfeito. Assim, “era” pode ser traduzido por “tornou-se” ou “veio a ser” – alguns estudiosos do hebraico negam essa possibilidade, entre eles, Frederick Ross e Bernard Northrup, mas outros afirmam positivamente. Citam ainda, os defensores da teoria do caos, Isaías 45.18 “… o Deus que formou a terra e a fez; ele a estabeleceu, não a criou vazia, mas a formou para que fosse habitada…”. Para mostrarem que a terra foi habitada anteriormente, apresentam citação isolada, tirada de seu contexto e, portanto, nada podem provar. Os teóricos da matéria em questão intencionalmente esquecem ou evitam o que está escrito no versículo 12a: “Eu fiz a terra e criei nela o homem”.

O resumo é que a terra em seu estado primeiro, a primeira substância, era sem forma (heb. “bohu”) e vazia (heb. “wabohu”), e isso dá uma dimensão da obra criadora de um Deus Pessoal, que tem intelecto, sentimento e vontade, e por isso ordenou todas as coisas com inteligência, beleza e amor. Outro fator importante no relato da criação é a posição do escritor do Gênesis em sua confrontação com as narrativas existentes, negando as concepções mitológicas de seu tempo ou anteriores a ele. A Bíblia revela que houve um princípio, quando a matéria era ainda um caos, e o Deus Criador, por sua Palavra deu forma ao informe e encheu o vazio de vida e beleza, ordenando todas as coisas em seu lugar e estabelecendo leis perpétuas.

A CRIAÇÃO DO HOMEM

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (1.26).

O homem ser a “imagem de Deus” significa ser dotado das faculdades de raciocinar, de expressar emoções e de agir voluntariamente. Particularmente, indica a capacidade que o homem tem de manter íntima comunhão com seu Criador.

Deus fez o homem como coroa da criação. O fato de que os membros da Trindade terem falado entre si indica que este foi o ato transcendental e a consumação da obra criadora. Deus criou o homem para ser tanto do mundo espiritual como do mundo terreno, pois tem corpo, alma e espírito.

A QUEDA DO HOMEM

Um dos temas centrais de Gênesis é a introdução do pecado no mundo e seu impacto sobre a história da humanidade. Quando Adão e Eva foram criados, a imortalidade estava a seu alcance, pois a árvore da vida fora colocada no jardim para seu usufruto. Quando caíram em tentação, foram expulsos e o acesso à Árvore lhes foi negado. O desejo de serem iguais a Deu cousou a desobediência, e ele incluía o desejo de independência, como os filhos anseiam ser independentes dos pais e tomar as próprias decisões.

O castigo foi adequado e lógico. A independência geralmente traz separação, e assim se deu no relacionamento de Adão e Eva com Deus. Daí em diante vários ciclos de pecados e castigos fizeram parte do inicio da história do homem. Para Adão e Eva, Caim e Abel, o pecado era de natureza individual. Nas ações de Lameque (4.23-24) e na conduta dos “filhos de Deus” (6.1-4), podemos identificar a expansão do pecado em direção às instituições da sociedade (família e governo). Na época de Noé, o pecado se infiltrara completamente na humanidade. A destruição pelo Dilúvio, não eliminou o pecado, pois ele progrediu mais uma vez.

A eleição de Abraão não pôs fim ao pecado. As trapaças de Jacó são particularmente chocantes. Jacó conseguiu a benção para si ao se disfarçar de Esaú (cap. 27), mas tornou-se vítima do mesmo logro quando se casou com Lia, disfarçada de Raquel. Mas pungente foi a fraude seus filhos, que mostraram a túnica ensanguentada para convencer Jacó de que José estava morto. Quanto ao tema pecado e castigo, vemos não somente a misericórdia de Deus bem como a sua justiça.

No Gênesis, Adão está ligado aos patriarcas e, através deles, por genealogia, ao resto da raça humana (caps. 5; 10 e 11), fazendo dele uma parte da história, tanto quanto Abraão, Isaque e Jacó. Todos os principais personagens do Livro de Gênesis, depois de Adão são mostrados claramente como pecadores de um modo ou de outro, e a morte de José, como a morte de quase todos os outros na história, é cuidadosamente registrada. A afirmação de Paulo: “Em Adão, todos morrem” (1Co 15.22) só torna explicito aquilo que Gênesis já deixa claramente implícito.

É razoável afirmar que a narrativa da queda sozinha dá uma explicação convincente para a perversão da natureza humana. Pascal disse que a doutrina do pecado original parece uma ofensa à razão, porém, uma vez aceita, dá sentido total à condição humana. Ele estava certo; e a mesma coisa poderia e deveria ser dita a respeito da própria narrativa da queda.

A CIVILIZAÇÃO ANTES DO DILÚVIO

A civilização anterior ao Dilúvio é chamada antediluviana e pereceu sob o julgamento das águas. Foi iniciada por Caim e terminou em destruição. A Bíblia ensina, e os arqueólogos confirmam que os homens que viveram antes do dilúvio não eram selvagens; já tinham atingido um considerável grau de civilização. Em Gênesis 4.17-22, é mencionado seu progresso. Embora não se saiba muita coisa sobre os antediluvianos, alguns lugares que habitaram foram descobertos, e remanescentes das suas obras confirmam uma civilização como a Bíblia parece descrever.

Em três cidades, Ur, Quis e Fara, o depósito sedimentar deixado pelo dilúvio foi descoberto pelo professor Woolley, arqueólogo enviado pelo Museu Britânico e pela Universidade da Pensilvânia. Debaixo dos depósitos diluvianos em Ur, ele encontrou camadas de detritos cheias de instrumentos de pedra, cerâmica colorida e tijolos queimados. O mesmo se deu com as outras duas cidades.

O DILÚVIO

A narrativa do Dilúvio na Bíblia é muito simples e direta. A história não é contada para ser assustadora ou interessante, mas para ser um acontecimento da história da redenção. O mal tinha crescido desenfreadamente, ameaçava destruir tudo o que havia de bom; só restava um homem justo, Noé. Deus revelou a Noé seu plano de destruir a raça corrupta e de salvá-lo junto com sua família e, por ele, a humanidade inteira.

Deus foi longânimo com os homens. Noé os advertiu por 120 anos, enquanto construía a arca. Mesmo depois que Noé e sua família entraram na arca, levando consigo dois de cada espécie de animais imundos e 14 de cada espécie de animais limpos, houve um intervalo de sete dias antes que começasse a chover, mas as misericórdias de Deus foram recusadas e, como resultado os homens pereceram (caps. 6 e 7). Noé e sua família foram salvos do Dilúvio pela arca. Eles permaneceram na arca aproximadamente um ano solar. Noé viria a ser o segundo pai da raça humana.

O propósito do Dilúvio era tanto destrutivo como construtivo. A linhagem da mulher corria o perigo de desaparecer completamente pela maldade dos homens. Por isso Deus exterminou a incorrigível raça velha para estabelecer uma nova.

A extensão do Dilúvio foi universal ou limitado à área do Oriente Médio? Alguns pensam que o Dilúvio aconteceu apenas na terra habitada daquele tempo, pois o propósito divino era destruir a humanidade pecaminosa. Dizem que o uso bíblico da expressão “toda a terra” significa a terra conhecida pelo autor de Gênesis.

Os que creem que o Dilúvio foi universal notam que o relato bíblico emprega expressões fortes e as repete dando a impressão de um Dilúvio universal. Perguntam: Qual era a extensão da população humana? Parece-lhes possível que a população tenha se estendido até à Europa e África. Certos estudiosos creem que as grandes mudanças na crosta terrestre e repentinas e drásticas alterações no clima de áreas geográficas, como Alasca e Sibéria, podem ser atribuídas ao Dilúvio.

Após o Dilúvio, a benção foi renovada, mas a degeneração ocorreu rapidamente. O autor continua a argumentar a favor do efeito insidioso da natureza corrompida do homem, vista até nos filhos de Noé. Cremos ser este o limiar da nova alma corrompida do homem ao iniciar a construção da torre de Babel na planície de Sinear (11.1-4). Por isso Deus impôs limites a capacidade das pessoas de unir-se em rebelião. Ele realizou isso ao fazer com que falassem línguas diferentes, ocasionando a dispersão geográfica (11.7-8).

OS PATRIARCAS E O POVO ELEITO

Apesar da maldade do coração humano, Deus quis mostrar sua graça. Ele queria um povo escolhido:

1. A quem pudesse confiar as Sagradas Escrituras;

2. Que fosse sua testemunha a outras nações;

3. Mediante o qual o Messias pudesse vir.

Na extremidade oriental, na cidade de Ur na Caldéia, vivia o hebreu Abraão. Deus chamou Abraão para deixar seu lar de idolatria, e ir para uma terra desconhecida onde Deus o faria pai de uma grande nação (12.1-3). Assim começa a história de Israel, o povo escolhido de Deus.

Dos capítulos 12 ao 22 é apresentada a história variada da instituição da aliança entre Abraão e o Senhor. Depois de Abraão deixar sua terra, os quarenta ou cinquenta anos seguintes foram de suspense contínuo em relação à realização das promessas de Deus a ele.

A abordagem principal do narrador é apresentar diversos elementos que colocam em risco as promessas da aliança. À medida que cada obstáculo é superado, outro passo é apresentado para se chegar ao cumprimento das promessas. Os obstáculos apresentam formas variadas de herdeiros substitutos ou situações que ameaçam os personagens principais.

A primeira ameaça surgiu quando Abraão e Sara foram para o Egito para escapar da fome em Canaã. O perigo era que o faraó se apossasse de Sara para seu harém. A ameaça foi eliminada quando o casal foi mandado embora do Egito.

O primeiro obstáculo a superar com relação ao herdeiro foi a esterilidade de Sara e a presença do sobrinho de Abraão, Ló. Como Abraão e Sara não tinham filhos, Ló era o herdeiro mais provável. O empecilho foi resolvido quando Ló escolheu a planície próximo de Sodoma, o que o separou de Abraão (cap. 13).

A narrativa continua no capitulo 15 com a apresentação do segundo herdeiro substituto, Eliézer, chefe da casa de Abraão. O Senhor porém mostrou que o herdeiro seria filho do próprio Abraão e mais um obstáculo foi removido.

No capítulo 16 , o terceiro herdeiro entrou em cena. Nesse episódio Sara sugeriu que Abraão devia tomar uma escrava da casa como esposa substituta para que a linhagem continuasse. Dessa forma nasceu Ismael, filho legitimo de Abraão, conforme os costumes da época.

Treze anos se passaram durante os quais Abraão considerou Ismael seu herdeiro. Abraão ficou surpreso ao ouvir do Senhor que o herdeiro prometido ainda não nascera e seria filho natural dele com Sara (15.21). Essa mensagem foi confirmada pela visita dos três homens à tenda de Abraão (cap. 18).

O capitulo 20 descreve o episódio no qual Sara estava prestes a ser levada para o harém de Abimeleque, rei de Gerar. Abraão havia usado para com o rei a mesma estratégia que havia usado no Egito, ou seja, dizer que Sara era sua irmã. De Novo o Senhor interviu e evitou que o problema fosse maior.

Finalmente nasceu Isaque, o filho tão esperado (cap. 21). Mas Deus pede a Abraão que lhe sacrifique o filho (cap. 22). Todas as barreiras anteriores tinham decorrido de erros humanos. Esta agora vinha do próprio Deus. Quando essa última ameaça foi eliminada, as promessas foram repetidas a Abraão (22.16-18).

Abraão foi chamado “amigo de Deus”. Deus fez uma aliança com ele pela qual seria o pai de uma grande nação e por meio dele as nações da terra seriam abençoadas. Seus descendentes receberam um cuidado especial de Deus que os tratou como a nenhum outro povo. Sempre se fala dos judeus como o povo escolhido.

O Senhor elegeu incondicionalmente os patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, e prometeu fazer de sua descendência eleita a nação destinada a possuir e abençoar a terra (12.1-3; 13.15-16; 17.1-8; 26.2-6; 28.10-15).

Por meio de Isaque, filho de Abraão, as promessas passaram para Jacó, o qual, apesar de suas muitas faltas, deu valor à benção da aliança de Deus. Ele tinha entusiasmo pelo plano de Deus de fundar uma nação por meio da qual o mundo todo seria abençoado.

Antes de Jacó nascer e ter praticado o bem ou o mal, Deus o escolheu, e não a Esaú, o seu irmão gêmeo mais velho (25.21-26). Ele escolheu Jacó, apesar deste ter trapaceado contra seu irmão, enganando seu pai para receber a benção que deveria ser do primogênito (cap. 27). Deus não levou em conta os costumes e tradições quando escolheu o filho mais jovem, Jacó, e não o mais velho, Esaú.

Jacó em suas peregrinações sofreu por causa do seu pecado, mas a disciplina de Deus fez dele um grande homem. Seu nome foi mudado para Israel, um príncipe que lutou com Deus (23.28). Esse é o nome pelo qual a nação foi chamada. Seus doze filhos se tornaram cabeças de doze tribos de Israel (cap. 49).

Deus inclinou o coração dos seus eleitos a confiarem em suas promessas e a obedecerem aos seus mandamentos. Contra toda a esperança, Abraão confiou que Deus lhe daria uma descendência incontável e o legislador diz que Deus lhe imputou isso como justiça (15.6). Confiantes nas firmes promessas de Deus, Abraão renunciou aos direitos sobre a terra, dando a Ló o direito de escolher as melhores pastagens (cap.13) e Jacó, agora chamado Israel e apegando-se somente em Deus devolveu simbolicamente o direito de primogenitura a Esaú (cap. 33). No começo da narrativa sobre José, Judá vendeu José como escravo (37.26-27), mas no fim, Judá se dispõe a tornar-se escravo em lugar de seu irmão Benjamim (44.33-34). Firmado na verdade de que o desígnio de Deus trouxera o bem a partir de pecados tão atrozes cometidos por seus irmãos contra ele, José os perdoou sem recriminação (45.4-8; 50.24).

ISRAEL NO EGITO

Deus prometeu a Abraão que seus descendentes herdariam a terra de Canaã. Segundo a promessa de Deus essa terra se estenderia desde o Nilo até o Eufrates (15.18). Israel nunca ocupou toda a terra que Deus lhe prometeu, e parece que a promessa se cumprirá cabalmente no período do Milênio. Os hebreus ocuparam Canaã no tempo de Josué, mas só chegaram ao apogeu quanto à extensão territorial durante o reinado de Davi.

Deus havia revelado a Abraão que sua descendência passaria quatrocentos anos na terra alheia (15.13-16). A paciência de Deus esperaria até que a maldade dos povos de Canaã chegasse ao ponto máximo antes de destruí-los e entregar a terra deles a Israel. É evidente também a necessidade de que os hebreus fossem para o Egito. A aliança matrimonial de Judá com uma cananéia e sua conduta vergonhosa descrita no capítulo 38, indicam-nos o perigo que havia em Canaã de que os hebreus se corrompessem por completo e perdessem seu caráter essencial. No Egito os hebreus não seriam tentados a casar-se com mulheres egípcias nem a misturar-se com os egípcios, pois estes desprezavam os povos pastores, como eram os israelitas (46.34). Além do mais, tão logo os cananeus reconhecessem os planos dos israelitas de estabelecer-se definitivamente em Canaã e assenhorear-se de suas terras, iniciariam uma guerra para tentar exterminar os descendentes de Abraão. Tal coisa não tinha perigo de suceder em Gósen. Ali, sob a proteção do poderoso faraó, os hebreus poderiam multiplicar-se e desenvolver-se até chegar a ser uma nação poderosa e numerosa, com força para vencer os cananeus.

Para que tudo isso fosse possível, Deus enviou José para o Egito. Mesmo seus irmãos tendo-o vendido e ele tendo ido servir de escravo depois prisioneiro na terra dos faraós, tudo aconteceu por providência divina (50.20). José chegou ao poder sendo o segundo homem no governo dos egípcios, tendo acima dele apenas o faraó.

Quando Jacó e seu povo vieram para o Egito fugindo da fome em Canaã, eles eram sessenta e seis pessoas. E foi desse pequeno número que Deus fez surgir a grande nação de israelitas.

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS

Pelo estudo da estrutura literária de Gênesis, destacam-se os seguintes aspectos. Após o prólogo, Gênesis divide-se em partes, cujo inicio é caracterizado pela fórmula: “Esta é a genealogia (ou história) de”. Esse titulo é seguido por uma genealogia das pessoas referidas ou por episódios envolvendo descendentes mais notáveis.

A chave para compreensão das narrativas é geralmente oferecida em uma revelação que serve de abertura às mesmas: por exemplo, a promessa a Abraão (12.1-3), o sinal da rivalidade entre Jacó e Esaú (25.22-23), e os sonhos de José (37.1-11).

A narrativa concentra-se muitas vezes na vida de um filho mais novo em detrimento do primogênito. Sete em detrimento de Caim, Sem em detrimento de Jafé, Isaque em detrimento de Ismael, Jacó em detrimento de Esaú, José em detrimento de Judá e Efraim na frente de Manasses. Esse realce dispensado a homens divinamente escolhidos e a suas famílias é talvez a característica literária mais evidente no livro de Gênesis como um todo. Ressalta de modo notável que o povo de Deus não é produto de acontecimentos humanos e naturais, mas resulta da intervenção soberana e misericordiosa de Deus na história da humanidade. Deus levanta da espécie humana decaída, nova humanidade consagrada a ele, chamada e destinada para ser seu povo de seu reino e canal de bênçãos para toda a terra.

A seção que conclui a última narrativa contém fortes vínculos com o livro de Êxodo, terminando com um juramento que José obteve de seus irmãos de que, quando Deus viesse em seu socorro e os reconduzisse a Canaã, levariam consigo o seu corpo embalsamado (50.24-25; Êx 13.19).

TEMA E MENSAGEM

Gênesis trata dos começos, do céu e da terra; da luz e das trevas; dos mares e da atmosfera; dos solos e da vegetação; do sol, da lua e das estrelas; dos animais marinhos, aéreos e terrestres; dos seres humanos; do pecado e da redenção; da benção e da maldição; da sociedade e da civilização; do casamento e da família. A lista poderia estender-se indefinidamente.

Moisés apresenta todo o conteúdo de sua obra de modo simples e prático; não tem a preocupação em provar coisa alguma, pois apenas escreve o que Deus lhe mandou dizer e essa a maior e mais evidente demonstração da verdade que envolve os relatos bíblicos. A Bíblia não é um manual técnico, filosófico, terapêutico ou moral; é a Palavra de Deus. E isso basta.

Várias histórias são contadas, e podem ser bem identificadas, sendo que algumas dessas histórias são condensadas; contudo, são decisivas para uma compreensão clara e acertada do conteúdo geral do livro. Com certeza o autor usou fontes informativas, orais e escritas; pois seus relatos remontam aos tempos mais primitivos da origem da raça humana.

O livro de Gênesis é absolutamente fundamental para que possamos compreender todo o restante da Bíblia. Gênesis é também uma obra que trata de relacionamentos, ressaltando a interação de Deus com a natureza e, sobretudo com os seres humanos, e estes entre si. O livro é absolutamente monoteísta, afirmando por certo e claro a existência de Um só, Eterno e Soberano Deus, digno, portanto, desse nome: DEUS. A obra faz evidente oposição à idéia de que existam muitos deuses espalhados pelo Universo.

O objetivo da narrativa de Gênesis é estabelecer o fato de que Javé estava seguindo soberanamente um plano histórico. O homem foi criado com todas as vantagens e colocado cuidadosamente por Deus em uma situação ideal. Isso é importante, pois nos leva ao próximo aspecto da mensagem do livro. Foram homem e mulher que abalaram o equilíbrio e causaram a triste condição de nossa existência atual.

O fracasso contínuo da humanidade levou Javé a enviar o Dilúvio, espalhando o povo da planície de Sinear e, finalmente agir por meio de um homem, Abraão, e sua família. A mensagem do livro é oferecer isto como explicação da escolha de Javé de agir por intermédio de um povo eleito. Este é seu plano de auto-revelação. Além disso, demonstra-se que não foi por mérito da parte de Abraão que Deus o escolheu. Pelo contrário, foi um ato de soberania de Deus. Abraão merece o reconhecimento por obedecer e confiar que Javé cumpriria suas promessas.

A mensagem das narrativas patriarcais é que por meio de muitas situações difíceis os patriarcas e, em particular, o Senhor perseveraram para conseguir a instituição da família de Abraão. O texto não hesita em mostrar as deficiências de Abraão e de sua família, mas Deus é fiel e, de forma constante e providencial, obteve resultados positivos apesar das circunstâncias ruins.

Essa é a mensagem teológica do livro. Também existem outros níveis nos quais Gênesis possui mensagens. Do ponto de vista geográfico, o livro demonstra que Abraão e sua família eram de origem mesopotâmica, mas passaram três gerações em Canaã antes de descer ao Egito. Isso é significativo para sua identidade étnica e teológica.

Finalmente Gênesis também procura explicar a organização de Israel. A mensagem esclarece os relacionamentos entre as doze tribos e relata a preeminência de umas e obscuridade de outras. As mensagens geográficas (viagem dos patriarcas), sociologia e polemica devem ser consideradas pelo compilador temas que pretendia abordar. Contudo, devem ser julgadas secundárias em relação à teologia na qual a aliança e Javé são fundamentais.
A BENÇÃO PROFÉTICA DE JACÓ

Do capítulo 46 ao 49, Jacó é a pessoa que mais se sobressai e demonstra ser o patriarca digno do novo nome que lhe fora dado por Deus em Peniel (32.27-28). Jacó Havia passado pela escola do sofrimento, incluindo sua fuga de Esaú, suas dificuldades com Labão, a morte de sua amada Raquel, a humilhação sofrida por sua filha Diná e os muitos anos de solidão, durante os quais guardou luto por José. Não foi para o Egito como um refugiado, mas como chefe de uma família que, segundo a promessa de Deus, converter-se-ia em nação.

No penúltimo capítulo do livro de Gênesis temos a benção de Jacó para seus filhos (cap. 49). E ele inicia a benção deixando bem claro que está profetizando “Depois chamou Jacó a seus filhos, e disse: Ajuntai-vos, e anunciar-vos-ei o que vos há de acontecer nos dias vindouros” (49.1).

Jacó profetizou com assombroso discernimento as características das doze tribos.

A mais importante benção e a profecia mais transcendente do capítulo é a que se refere a tribo de Judá (49.8-12). Jacó compara Judá ao leão por sua valentia, força irresistível e supremacia sobre as outras tribos. Historicamente Judá foi posta à cabeça do acampamento israelita durante a peregrinação pelo deserto (Nm 22.2-9; 10.14), foi divinamente designada para ser a primeira em retomar a guerra contra os cananeus após a morte de Josué (Jz 1.1-2). Seu exército no período de Davi representava mais de um terço da totalidade dos soldados israelitas (2Sm 24.9). Jacó profetizou: “O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos” (24.9).

À tribo de Judá foi concedida a grande honra de ser a progenitora da dinastia real, a casa de Davi. Pela fé Jacó olhou para o futuro longínquo e contemplou a vinda do Messias. Judá exerceria a autoridade real sobre as outras tribos “até que venha Siló”. Não é claro o significado da palavra “Siló” no idioma hebraico, porém muitos estudiosos da Bíblia a interpretam como “Pacificador” ou “aquele a quem pertence do direito real”. Outra interpretação indicaria que o cetro ou símbolo real estaria em mãos de sucessivos reis de Judá até que viesse o Rei a quem Deus reservava o direito de reinar sobre todas as nações. Um rei de justiça e paz, ou seja, JESUS CRISTO.

DÚVIDAS FREQUENTES SOBRE GÊNESIS

Existiu uma raça anterior a Adão?

A fim de tentar explicar a pluralidade das raças que povoam a Terra, alguns têm proposto que Deus criou outras pessoas antes de Adão e Eva, ou juntamente com eles. Outros tomados por um delírio exacerbado chegam a propor que Deus criou outros seres humanos, além do primeiro casal (Adão E Eva), não somente para povoar a terra, mas também para habitar outros planetas. Com isso querem dar existência a Ovnis e aos seres extraterrestres.

Não há um só versículo na Bíblia que abone tal afirmação. Não encontramos nenhuma passagem bíblica que afirme que Deus tenha criado outros seres humanos para habitar a terra ou outro planeta. Essa afirmação é fruto de uma teoria conhecida como “Poligenismo”, que não tem nenhum amparo nas Escrituras Sagradas.

De acordo com a Bíblia, o primeiro e único homem criado diretamente por Deus foi Adão por meio do qual fez Eva (Gn 1.26-28; 2.7,18-24) e, a partir desse casal toda a terra passou a ser povoada. Essa teoria é conhecida por Monogenista e tem o total amparo nas Escrituras (At 17.26; Rm 5.12; ICo 15.45; ITm 2.13).

Com explicar a existência da luz antes da criação dos luminares?

De acordo com a cronologia dos dias da criação, no primeiro dia Deus disse: “Haja luz. E houve luz”. Não obstante, foi somente no quarto dia que Deus criou os grandes luminares (1.3, 14-17).

A pergunta é: se o sol, a lua e as estrelas só foram criados no quarto dia, que luz é essa que Deus criou no primeiro dia? Como explicar a existência da luz antes da criação dos luminares?

A fim de solucionar essa aparente contradição, alguns têm proposto que essa luz seria uma luz cósmica. Mas esta hipótese deve ser descartada por uma simples razão, o cosmo ainda não existia já que a luz foi o primeiro ato da criação de Deus.

A única explicação plausível que nos resta, usando Ap 21.23; 22.5 e 2Co 4.6, é que essa luz, a qual foi criada no primeiro dia da criação, procede do próprio Deus, a fonte de toda luz o qual também é o Pai das luzes (Tg 1.17).

O propósito de Deus trazer a luz antes da criação dos luminares é mostrar de forma clara que ele é a fonte de toda a luz. Tudo depende dele. Deus é a causa primária a partir do qual tudo existe. A luz precede a luz dos astros, seja o sol, seja a lua ou as estrelas, e existe independentemente destes.

Deus sabia que Adão iria pecar?

A resposta é sim! Apesar dos adeptos da teologia relacional, teologia do processo ou teísmo aberto defenderem a idéia de que Deus abriu mão de seus atributos incomunicáveis e tornou-se um parceiro do homem na construção da história e, portanto, não sabe o que vai acontecer amanhã. De acordo com os ensinos gerais das Sagradas Escrituras, Deus sabe todas as coisas: o passado, o presente e o futuro. Nada está fora do alcance do seu conhecimento ou de seu controle.

A Bíblia ensina, de forma irrefutável, que Deus é onisciente. A Onisciência de Deus, um dos seus atributos incomunicáveis, é uma das verdades centrais da fé cristã.

Uma das passagens clássicas sobre a onisciência de Deus está registrada no Salmo 139.

Portanto, à luz das provas bíblicas, podemos responder que sem sombra de dúvidas: Deus sabia que Adão iria pecar.

Então porque Deus não impediu o pecado de Adão?

Deus não impediu Adão de pecar por causa da liberdade que ele mesmo outorgou ao homem.

O homem foi criado por Deus como um ser moralmente livre; e, ao interferir no livre arbítrio do homem, apesar de ser soberano, Deus fere o princípio da liberdade fazendo com que o homem o obedeça por imposição e não voluntariamente ou por amor. De outra forma não seria obediência voluntária, mas imposição. E, é justamente por essa e por outras razões que Deus não impediu Adão de pecar.

O que era o sinal de Caim?

A palavra hebraica usada aqui não indica que esse sinal fosse uma tatuagem ou mutilação, geralmente infligidas a escravos ou criminosos (mencionado no Código Hamurabi). Compara-se melhor à marca de proteção divina colocada na testa dos inocentes em Jerusalém citada em Ezequiel 9.4-6. Pode ser um sinal externo, que levaria outros a tratá-lo com respeito e cuidado. O certo é que não há como afirmar que sinal era este.

Era normal a escrava gerar filhos com o marido da patroa?

A estranha prática de Sara, Rebeca e Lia que quiseram reparar a humilhação de sua esterilidade entregando suas escravas ao marido para obter descendência (16.1-3; 30.1-4, 9-10), é aceita hoje pelos leitores da Bíblia como uma prática normal na época. Depois do descobrimento das tabuletas dos arquivos reais de Nuzi (cidade da Mesopotâmia), pode-se saber que tal atitude era habitual na região norte da Mesopotâmia, durante o segundo milênio a.C. Em tais casos as leis de Nuzi protegiam a escrava e os seus filhos diante de possíveis ciúmes da esposa. Por exemplo, elas não podiam ser expulsas de casa. Tal determinação não foi cumprida no caso de Agar e Ismael que por causa dos ciúmes de Sara e da fraqueza de Abraão, foram mandados embora (21.8-14).

Para quem Jacó iria entregar o dízimo?

No mundo antigo, geralmente o dízimo era um tipo de cobrança de impostos. Os dízimos eram pagos ao templo e ao rei. Visto que os proventos e a riqueza de uma pessoa não eram primordialmente em forma de dinheiro, todos os bens eram incluídos nos cálculos do dízimo, conforme indicados pela afirmação de Jacó “de tudo que me deres” (28.22). O dízimo de Jacó era evidentemente voluntário, e não imposto, Portanto não estaria associado a nenhum tipo de cobrança de tributos. Não havia templo ou sacerdote em Betel, assim não se sabe a quem Jacó entregaria o dízimo. Provavelmente Jacó estava prevendo que toda a riqueza que iria adquirir viria na forma de rebanho. Nesse caso, o dízimo seria representado na forma de sacrifícios de animais.

CONCLUSÃO

O que começou em Gênesis cumpre-se em Cristo. A genealogia iniciada no capítulo 5 prossegue no capítulo 11 e termina com o nascimento de Jesus Cristo (Mt 1; Lc 3.23-27). Ele é em última análise, o descendente prometido a Abraão (12.1-3; Gl 3.16). Os eleitos são abençoados nele porque somente ele, por sua obediência ativa e passiva, satisfaz as exigências da Lei e morreu em lugar deles. Todos os que são batizados em Cristos e unidos com ele por sua fé são descendentes de Abraão (Gl 3.26-29).

As arrojadas profecias e as prefigurações sutis em Gênesis mostram que Deus está escrevendo uma história que conduz ao descanso em Cristo. No limiar da profecia bíblica, Noé predisse que os descendentes de Jafé encontrariam salvação através dos descendentes de Sem (9.27), essa profecia se cumpriu no Novo Testamento (At 14.27; Ef 2.11-22; 3.6). O próprio Deus proclamou que o descendente da mulher destruiria Satanás (3.15). Este descendente é Cristo e sua igreja (Rm 16.20). Assim como o Israel redimido da escravidão no Egito encontrou descanso, subsistência e refúgio na Terra Prometida, assim também a igreja redimida do mundo de pecado encontra vida e descanso em Cristo. O paraíso perdido pelo primeiro Adão é restaurado pelo último Adão, Cristo (ICo 15.45). Esta história sagrada, unificada assim de forma tão maravilhosa, certifica que o enfoque de Gênesis é Cristo.

ESBOÇO DE GÊNESIS

I. A história primitiva do ser humano 1.1– 11.32

As narrativas da criação 1.1-2.5

1. Criação dos céus, da terra, e da vida sobre a terra 1.1-2.3
2. Criação do ser humano 2.4-25
B) A queda do ser humano 3.1-24

O mundo anterior ao dilúvio 4.1-5.32
Noé e o dilúvio 6.1-9.29
A Tabela das nações 10.1-32
A confusão das línguas 11.1-9
Genealogia de Abraão 11.10-32

II. Os patriarcas escolhidos 12.1-50.26

Abrão (Abraão) 12.1-23.20

1) O chamado de Abraão 12.1-23.20
2) A batalha dos reis 14.1-24
3) O concerto de Deus com Abraão 15.1-21.34
4) O teste de Abraão 22.1-24

Isaque 24.1-26.35

1) A noiva de Isaque vem da Mesopotâmia 24.1-67
2) A morte de Abraão 25.1-11
3) Ismael, Esaú e Jacó 25.12-34
4) Deus confirma seu concerto com Isaque 26.1-35

Jacó 27.1-35,29

1) Jacó engana o seu pai 27.1-46
2) A fuga de Jacó para Harã 28.1-10
3) Deus confirma o concerto com Jacó 28.11-22
4) O casamento de Jacó em Harã 29.1– 30.43
5) O retorno de Jacó para Canaã 31.1-35.29

Esaú 36.1-43
José 37.1-50.26

1) A venda de José 37.1-40.23
2) A exaltação de José 41.1-57
3) José e os seus irmãos 42.1-45.28
4) Jacó muda para o Egito 46.1-48.22
5) A benção de Jacó e o seu sepultamento 49.1-50.21
6) Os últimos dias de José 50.22-26
FONTES
Panorama do Antigo Testamento – Editora Betesda;

Panorama do Antigo Testamento, Andrew E. Hill & J. H. Walton – Editora Vida;

Panorama Bíblico Avançado, Francisco R. Girardi – Editora Quadrangular;

Pequena Enciclopédia Bíblica, Orlando Boyer – Editora CPAD

Visão Panorâmica do Plano Divino de Redenção, Guaracy Silveira – Editora Quadrangular;

Estudo Panorâmico da Bíblia, Henrietta Mears – Editora Vida;

Comentário Bíblico Atos, John Walton, Victor Matthews & Mark Chavalas – Editora Atos;

As Dispensações Analisadas, Júlio Rosa – Editora Quadrangular;

Novo Dicionário de Bíblia, John Davis – Editora Hagnos;

Dicionário Bíblico Conhecendo e Entendendo a Palavra de Deus, João Ribeiro Santos – Editora Didática Paulista;

Perguntas Difíceis de Responder, Volume 3, Elias Soares de Moraes – Editora Beitshalom;

Pentateuco, Isabel de Camargo Fernandes – Editora Quadrangular;

O Pentateuco, Félix García López – Paulinas;

A Linguagem de Deus, Francis S. Collins – Editora Gente;

O Meio Ambiente Segundo o Seu Criador, Damy Ferreira – Socep Editora;

A Inerrância da Bíblia, organizado por Norman Geisler – Editora Vida;

A Bíblia em Ordem Cronológica, Edward Reese e Frank Klassen – Editora Vida;

Genesis Introdução e Comentário, Derek Kidner - Editora Vida Nova;
Teologia e Graça, Esdras Bento – CPAD;

Bíblia Thompson, Frank Charles Thompson – Editora Vida;

Bíblia King James, Edição de Estudo – Sociedade Bíblica Ibero Americana;

Bíblia Shedd – Editora Vida Nova;

Bíblia de Estudo de Genebra – Editora Cultura Cristã.

Bíblia Plenitude – CPAD

Bíblia de Estudo NVI – Editora Vida
J. DIAS

Fonte: www.santovivo.net

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